Texto · docência · erro · aprendizagem

Tem aluno que aprendeu que sumir é mais seguro que errar. Na sua aula.

Uma reflexão sobre o aluno que parou de tentar, não porque deixou de aprender, mas porque aprendeu que se expor custa caro demais.

Por Cássio Mori Leitura para professores e coordenação pedagógica

Tem um aluno na sua sala que, no começo do ano, tentava.

Levantava a mão às vezes. Arriscava uma resposta, mesmo sem certeza. Errava, como todo mundo erra.

Hoje, não.

Hoje ele entrega o mínimo. Responde “acho que sim”. Copia o que precisa copiar. Não pergunta, não se oferece, não aparece.

Olhando rápido, parece calmo. Um aluno tranquilo, desses que não dão trabalho.

Mas não é calma.

É recuo.

Em algum momento, naquela sala, ele aprendeu uma coisa: sumir é mais seguro que errar.

A conta que ele fez

Não foi preguiça. Nem desinteresse.

Foi cálculo.

E talvez tenha sido um cálculo razoável, diante do que ele observou.

Quem some não leva bronca. Não passa vergonha. Não vira piada. Quem arrisca e erra, às vezes, leva tudo isso. Entre as duas opções, desaparecer rende menos risco.

Então ele desaparece.

O problema é que, ao escolher não errar, ele também escolhe não tentar. E sem tentar não se aprende.

O aluno que some da exposição some junto do aprendizado.

Só que isso quase não aparece, porque o silêncio dele tem cara de bom comportamento.

A turma aprende o risco de errar

Ninguém anuncia para a turma que errar é perigoso.

A turma deduz.

Deduz pelo suspiro quando alguém erra. Pelo “isso eu já expliquei”. Pela correção feita na frente de todos, no tom que expõe. Pela risada que o professor deixa passar. Pelas marcas vermelhas que cobrem a folha inteira.

Aos poucos, o erro deixa de ser parte do caminho e vira prova de incapacidade.

E uma criança com medo lê cada palavra à procura de uma sentença sobre ela.

Não escuta “essa conta não fechou”.

Escuta “eu não sou bom nisso”.

Não vê um exercício errado.

Vê uma linha a mais na história de quem ela acha que é.

O exemplo que o adulto dá sem perceber

Aqui está a parte mais difícil de admitir.

A turma não aprende sobre erro só pelo modo como você corrige os erros dela. Aprende também pelo que você faz com os seus.

Um professor erra uma conta na lousa. Percebe na hora.

Pode parar e dizer: “deixa eu refazer, usei o coeficiente errado.”

Vinte segundos, e a turma vê um adulto corrigindo o próprio caminho.

Ou pode esconder, seguir em frente e só admitir depois, pela metade, quando os alunos o forçam.

Quando o adulto trata o próprio erro como uma dívida a esconder, ensina, sem dizer nada, que estar errado é vergonha.

O que fica na sala, nesse dia, não é a conta errada.

É a dificuldade de admitir.

Se errar é perigoso até para quem está na frente, imagine para quem está na carteira.

Errar de novo precisa custar menos

Tornar o erro seguro não é baixar a régua.

Também não é poupar o aluno da dificuldade. Aprender exige atravessar a parte difícil.

O ponto é outro: o erro precisa deixar de ameaçar a imagem que o aluno tem de si mesmo.

Algumas coisas mudam isso. Nenhuma é grande.

Separar, na própria frase, o erro da pessoa. “Essa parte ainda não fechou”, em vez de “você errou”. O “ainda” deixa a porta aberta.

Tirar a plateia quando dá. Medo gosta de público. Uma dúvida que não sairia na frente da turma pode sair numa conversa de canto.

Reconhecer a tentativa, não só o acerto. Quem arriscou e errou fez mais do que quem se escondeu. Se apenas o acerto é valorizado, a sala aprende que o seguro é não tentar.

E talvez o principal: distinguir o que está acontecendo.

Dúvida, dificuldade e medo não se atendem do mesmo jeito.

Quando é dúvida, a ajuda é explicar.

Quando é dificuldade, é dividir o caminho.

Quando é medo, antes de explicar ou cobrar, é preciso devolver segurança para tentar.

Pressa e cobrança, aí, só apertam o lugar onde o aluno já está preso.

Aquele aluno quieto talvez não tenha desistido da matéria.

Pode ter desistido de uma coisa mais específica: da segurança de errar na sua frente.

A boa notícia é que isso volta.

Não num dia. Não com um discurso.

Volta quando errar, naquela sala, deixa de custar tão caro.

Volta quando ele descobre, em pequenas doses, que dá para entrar, errar e continuar inteiro.

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