Texto · docência · sala de aula · presença

Você decora o nome dos bagunceiros. E esquece quem senta na frente calado.

Uma reflexão sobre o modo como a atenção do professor é puxada pelo barulho e como alguns alunos desaparecem justamente porque não dão trabalho.

Por Cássio Mori Leitura para professores e coordenação pedagógica

Faça um teste rápido.

Pense nos alunos que dão trabalho.

Você sabe o nome de todos. Sabe quem senta onde, quem começa a conversa, quem responde torto, em quem precisa ficar de olho. Sabe até o histórico: repetente, irônico, “esperto”, “precisa de limite”.

Agora pense na aluna quieta da segunda fileira.

A que entrega tudo no prazo, copia certinho, nunca interrompe.

Demorou mais, não foi?

Talvez você tenha hesitado até no nome.

Não é falta de cuidado. É como a atenção funciona

Isso não faz de você um professor pior que os outros.

A atenção é puxada por quem a exige. O aluno que atrapalha produz emergência: ocupa energia, obriga uma resposta, força você a olhar. E, muitas vezes, entra na sala antes de si mesmo, carregado por frases que outros já disseram sobre ele.

A reputação, quando chega antes, passa a escolher o que você vê.

O aluno quieto não exige nada. Não cria cena, não pede socorro, não interrompe. E quem não exige, numa sala cheia, costuma receber o resto.

Porque o ponto é esse: a escola não precisa ser péssima para não ver alguém. Basta estar cheia. Cheia de urgências visíveis, avaliações, mensagens, casos graves, alunos que chamam mais.

No meio disso, uma criança pode ir ficando menor sem que ninguém decida diminuí-la.

O elogio que esconde o abandono

O mais traiçoeiro é que, sobre essa aluna, a escola costuma dizer coisas boas.

“Esforçada.”
“Discreta.”
“Educada.”
“Não dá trabalho.”

Soa como elogio. Mas, às vezes, é apenas o nome bonito de uma baixa expectativa. Como se, para certos alunos, bastasse continuar. Como se entregar a tarefa e não incomodar fosse tudo o que se espera deles.

A “esforçada do fundo”, ou da frente, é perigosa justamente porque parece resolvida.

Ninguém se preocupa com quem cumpre sem respirar.

É fácil chamar a família de quem atrapalha. Difícil é perguntar o que acontece com quem sustenta, organiza, resolve e vai sumindo no processo.

Algumas negligências não têm vilão

Houve uma aluna assim numa escola atenta.

Coordenação presente, professores que se importavam, reuniões acontecendo, alguma cultura de cuidado. Mesmo assim, ela quase passou despercebida o ano inteiro.

Não foi abandonada por maldade. Nem por negligência de uma pessoa específica.

Quase passou porque algumas negligências não têm vilão. Têm rotina.

E a rotina, quando ninguém a interroga, produz seus próprios desaparecimentos.

O caso que mais deveria preocupar uma escola nem sempre é o mais grave. Às vezes, é o mais comum: o aluno que quase some no meio de tudo, sem que nada de errado tenha, oficialmente, acontecido.

Ver não é elogiar mais. É reconhecer com endereço

A correção não é encher a aluna quieta de “muito bem”.

Elogio genérico não alcança ninguém.

Num dia, uma professora pediu que a turma trouxesse frases de uma discussão em dupla. A colega dessa aluna levantou a mão:

“A Carla falou uma coisa.”

Com a autorização dela, leu em voz alta:

“aparece pouco quem estava ocupado fazendo a vida dos outros funcionar.”

A sala ficou em silêncio.

Não o silêncio de exposição. O silêncio de uma frase boa.

A professora não disse “muito bem, Carla”. Não fez homenagem. Não colocou a vida da aluna no centro. Só escreveu a ideia no quadro e seguiu, pondo a frase para trabalhar.

Reconhecer, às vezes, é só isso: deixar a contribuição de um aluno entrar na aula sem transformá-lo em assunto.

O reconhecimento que gruda é o que tem endereço. Aponta o que a pessoa fez, não o que ela genericamente é.

A mesma lente, dois erros

O bagunceiro e o quieto são duas faces do mesmo problema.

Num caso, você vê demais: vê pela reputação antes de ver a cena.

No outro, vê de menos: não vê porque ele não obriga.

Nos dois casos, não é exatamente você quem está olhando. É a lente que decide por você.

O barulho puxa o olhar.

O silêncio o dispensa.

Olhar de verdade é desconfiar disso. É lembrar que o aluno que você decorou pode estar maior na sua memória do que é de fato, e que o aluno que você esquece pode estar precisando, em silêncio, exatamente daquilo que ninguém anda oferecendo.

O nome que você decora não mede a sua atenção.

Quem mede é o nome que você precisa se esforçar para lembrar.

Porque esse, muitas vezes, é o que mais precisa que você lembre.

Continue por outros caminhos

Gostou dessa reflexão?

Ela faz parte de um conjunto maior de ideias sobre escola, professores, vínculo, presença e cultura escolar.

Livros

Reflexões para quem pensa a escola, a docência e a presença do professor na sala de aula real.

Conhecer os livros

Palestras

Encontros para professores, coordenação pedagógica, equipes escolares e instituições educacionais.

Ver temas de palestras

Textos

Outros artigos sobre docência, vínculo, atenção, cultura escolar e leitura da sala de aula.

Ler mais textos
Continuar essa conversa Livros e palestras de Cássio Mori
Conhecer